Aulas online e algumas implicações

A situação do isolamento social pela qual estamos passando afeta, direta ou indiretamente, todos os setores de prestação de serviços. Existiam planos, desejos, sonhos, expectativas pessoais, profissionais, enfim, ninguém esperava por esse enfrentamento do momento em que todos foram pegos de “surpresa”, sendo necessário se reinventar e seguir com novas propostas. 

A educação é um dos setores que está tentando se adaptar de uma maneira inovadora. Uns gostam, porém outros sofrem, afinal uma das situações que nos deparamos nesse novo contexto é que professores não são especialistas em ensino EAD e pais não são professores… e mesmo assim precisam viver essas novas experiências que são colocadas com as aulas online.  

Depois de conversar com pais e amigos educadores, percebi o quanto essa situação os desagradam e foi possível refletir sobre alguns pontos:

  • Famílias tendo que assumir a tarefa de ensinar, o que é diferente de acompanhar a educação escolar dos filhos.
  • Professores e equipe pedagógica que buscam estratégias extraordinárias para conseguir passar o conteúdo através de uma câmera, desde a educação infantil.
  • Mantenedores de escolas, que contavam com o fluxo e movimento de alunos para manter as despesas e fazer, com certeza, o melhor que acreditavam em educação. 
  • Crianças precisando permanecer em casa e se adaptar a nova rotina com aulas virtuais, tarefas, conteúdos novos, provas, trabalhos e pais trabalhando home office. Tendo que entender que o cenário de aprendizagem e relação social que vivia na escola mudou-se para sua casa.
  • Pais que se esforçam financeiramente para manter os filhos matriculados e agora encaram os fatos da aprendizagem a distância, redução de salários e pedidos de descontos na mensalidade escolar dos filhos.    

Olhar para todos os ângulos permite se colocar no lugar do outro, ser mais tolerante, compreender e logo ser compreendido nessa situação que é nova e desafiadora para todos. 

Essas são apenas algumas reflexões diante de muitas outras que surgem ao falar do assunto, mas a partir do momento que há compreensão dos fatos, do que nos aflige, aceitamos e seguimos com mais leveza o caminho. 

Vamos nos apoiar! Tudo isso vai passar e certamente levaremos conosco muita aprendizagem. 

Aline Souza –  Neuropsicopedagoga e Arteterapeuta 

Os contos de fadas

A criança gosta de ouvir histórias, tem preferências de acordo com o que sente no momento, escolhe personagens que se identifica e vive tornando-se parte do enredo. Quando a criança interage com as personagens facilita as projeções e identificações.  

Os contos trazem a sua explicação e significados nos temas e o arteterapeuta pode estabelecer uma relação entre o conto e o consciente da criança que ouviu. Na vida não existe só plenitude, todos passam em algum momento por obstáculos, angústias, medos, frustrações, até monstros aparecem e se torna significativo tomar conhecimento se colocando diante deles. Os contos podem fortalecer o ego e oferecem um caminho para enfrentar conflitos ao passar uma situação difícil. 

No momento certo, um conto pode dar uma nova visão e provocar transformações, elimina conteúdos internos que precisam ser liberados. É um recurso repleto de simbolismo, o ouvinte entra em contato com imagens arquetípicas como heróis, príncipes e bruxas. 

“O conto fala verdades sobre o modo de o ser humano viver, pensar, sonhar, desejar ou simplesmente ser. Fala de seus complexos, dificuldades de relacionamento, seus ciúmes, preguiça e orgulho; do relacionamento entre irmãos, entre pai e filha, pai e filho, mãe e filha e mãe e filho. Fala da tendência de seguir mais a razão do que o coração, da falta de atenção com sua vida animal e instintiva. Mas nunca fala de modo absoluto: assim é e sempre será! O conto sugere, dá possibilidade a quem o escuta de criar as suas próprias imagens a respeito do conto.” (BONAVENTURE, 2010, p.25).

Assim, o significado do conto será diferente para cada pessoa e para mesma pessoa em diferentes momentos de sua vida. A criança, por exemplo, irá compreender com significados diferentes o mesmo conto de fada, dependendo da sua necessidade e capacidade de compreensão no momento. Tendo oportunidade, voltará ao mesmo conto quando estiver pronta para ampliar os velhos significados ou substituí-los por novos. Tornando-se mais claros para a criança as imagens se modificam e novos símbolos aparecem permitindo ver o que antes não vislumbrava.

Aline Souza – Neuropsicopedagoga e Arteterapeuta

Referências:

BONAVENTURA, Jette. Porque os contos populares falam a todos? In SPACCAQUERCHE, Maria Elci Barbosa (Org.). Encontros de Psicologia Analítica. 2. ed. São Paulo; Paulus, 2010. 

BRANCO, Sonia; MEDEIROS, Adriana. Contos de fada: vivências e técnicas em arteterapia. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.

Mosaico, reorganizando os cacos…

A experiência com mosaico tem como pontos principais organizar, reunir, encaixar cacos, ato que acontece externamente, mas que em paralelo auxiliam a organização interna daquilo que se encontra em pedaços. É uma maneira de cuidar das emoções, dos afetos, das memórias e demais conteúdos que se encontram desorganizados e confusos. O mosaico é ótima ferramenta no processo arteterapêutico.

Vemos lindos trabalhos feitos com mosaicos, diversos fragmentos de azulejos e lindas pastilhas para criar e encantar.  No espaço terapêutico além dos azulejos e pastilhas podemos usar outros recursos para fazer o mosaico, como: tampas de embalagens plásticas, pedaços pequenos de papel e E.V.A., pedras, espelhos, folhas, sementes, miçangas, casca de ovo, asparas de lápis e o que mais a imaginação sugerir. Podem ser montados em pedaços de papelão, MDF, isopor, papel paraná e, colados com cola branca finalizando com massa para rejunte de parede.

Em certas situações é interessante que o cliente tenha o movimento de quebrar o azulejo, quebrar estruturas internas, liberar emoções de raiva ao usar sua força para despedaçar aquela peça dura e resistente. Após a quebra proponho ordenar os cacos e criar uma nova imagem, o que permite ressignificar conteúdos internos. 

É uma proposta que requer força, atenção, concentração, dedicação com as pequenas peças e criatividade. Lembrando que é importante preencher os espaços o máximo possível entre as peças, movimento que acontecerá internamente também.

Junte objetos variados e crie, fazendo um mosaico interno também! 

Aline Souza – Neuropsicopedagoga e Arteterapeuta


Fotografia na arteterapia

A fotografia é mais um recurso que podemos utilizar no processo arteterapêutico. São registros pessoais que nos trazem à tona memórias afetivas, resgate da infância, percepção de si mesmo e da linha do tempo da própria vida. Podem despertar emoções como alegria e tristeza ao reviver uma situação, também espanto e estranheza ao perceber aquela imagem de uma maneira nunca vista antes. 

Quando trabalho com fotos no espaço terapêutico, peço ao cliente que aprecie seu álbum de fotos impressas ou digitais e escolha aquelas que lhe chamarem atenção naquele momento. Geralmente trabalho com fotos até os sete anos de idade, depois mais sete, e assim sucessivamente, mas quando é criança escolhem fotos da vida toda. 

No momento de compartilhar, vamos resgatando memórias, refletindo sobre a linha da vida, recuperando recordações, momentos e percepções que de alguma maneira ficaram esquecidas por um período, despertando afetos e emoções incompreendidas. 

Dependendo do que remeteu ao cliente, na produção de arte, trabalho com a imaginação e criatividade, como remontar o cenário da foto, mudar posições de pessoas e usar adereços como roupas, maquiagem e cabelo para tirar novas fotos. Às vezes é preciso ampliar também para outras produções e explorar um tema por mais tempo. 

Tive uma situação que a criança trouxe uma foto em que ficou mexida e incomodada por não ter mais o quarto que tinha naquela foto, os pais tinham se separado há dois anos e tudo parecia caminhar bem. Até que tivemos a oportunidade de acessar essa emoção e poder trabalhar com expressões criativas, como caixa de areia, argila, confecção com sucatas e intervenções à família, ressignificando todo o processo de separação dos pais que se refletia na ideia do quarto que não tinha mais. 

Observar e apreciar fotografias nos fornece pistas sobre o ontem, no hoje, permitindo revisitar conteúdos emocionais e compreendê-los.   

Aline Souza – Neuropsicopedagoga e Arteterapeuta

Referência: Philippine, Angela. Linguagens, materiais expressivos em arteterapia: uso, indicações e propriedades:Rio de Janeiro: Wak Ed, 2009.